quarta-feira, 16 de maio de 2007

Rir é o melhor remédio


Dois milhões de portugueses consomem produtos para dormir melhor ou encarar a vida com outra atitude. Mais quinhentos mil são alcoólicos, outros tantos estão à beira de o ser. Temos cerca de 200 mil toxicodependentes. Ao todo, cerca de três milhões de portugueses padecem de doenças do foro mental. Somos um país tristonho e doente!

A Saúde Mental é a área de maior mercado em Portugal, a que promete maior crescimento económico nos próximos anos, porque temos uma atitude francamente negativa. Quando olhamos para um copo de água que tem o líquido a meio, a maioria repara que está meio vazio. Poucos dirão que está meio cheio.
Em 10 milhões de habitantes, 30% sofre de problemas de falta de bem-estar e de doença mental. A maioria padece de stress. Fazem escolhas irracionais condicionadas pela vontade dos outros e pelas obrigações que julgam ter.
Nas empresas, os chefes, normalmente angustiados pela incapacidade de fazer, são falhos de lucidez para perceber a realidade que enfrentam. Integram-se no sofrimento e aumentam o dos outros com escolhas que nenhuma racionalidade aconselha. Multiplicam a dor e o mal-estar. Por via disso, contribuem para a improdutividade que os neo-liberais descobriram ser o mal deste país! (Enfim, cada um vê o que lhe dá jeito!)
Apesar dos enormes progressos que a Ciência nos tem trazido através dos medicamentos, das terapias, dos equipamentos hospitalares, etc., somos mais infelizes do que antes.
Ao que se deve tal facto? Afinal, vivemos mais tempo e melhor em termos físicos, mas estamos doentes, carregados de angústias (stress). Tal facto deve-se à maneira como encaramos a vida, como consumimos impelidos pela publicidade e o marketing e como os órgãos de comunicação tratam os factos. Ambos estão intimamente associados.
Os nossos hábitos de consumo levam a que as televisões, na busca incessante de audiências, façam destaque da morte, da desgraça, da violência, do sofrimento, do negativo. Recorrem à informação emocional e ao espectáculo para captar a atenção, esquecendo os impactos que tem no modo como encaramos a vida.
Neste contexto, os jornalistas são – tal como os publicitários – utilizadores exímios na comunicação de choque, eficaz no desenvolvimento de atitudes, de desejos e expectativas. Quantos de nós ansiámos com desejo e fervor o início da Guerra do Golfo? Quantas mensagens foram passadas no sentido de nos fazer desejar a guerra?
Quantos estão a ser influenciados pela comunicação social no caso da pedofilia? Quantos votaram enganados no novo governo? Quantos percebem a incompetência do governo em perceber a realidade, em gerir as Finanças, a Economia, a Saúde? Quantos percebem a falta de bom senso dos políticos da berra? Muito disto, resulta de informação manipulada pelas fontes noticiosas e passada pelos jornalistas.
Esta relação de comunicação negativa é perniciosa. A Democracia definha hoje à custa deste problema. Mais de três milhões de portugueses sofrem a angústia de não conseguirem viver em equilíbrio com o dia-a-dia! De não perceberem o que se passa e por não se situarem de forma positiva.
Além destes, muitos idosos vivem anos de solidão e abandono (desvalorização humana) e os jovens passam a sua fase de crescimento mais instável sem o apoio da família. Também sofrem. Neste panorama, a situação é crítica. Estaremos à beira da falência emocional do país!
Apesar desta realidade, muitos há que sabem rir. Alguns olham para o copo de água meio cheio. Outros, praticam a terapia diária de rir 15 minutos – segundo um estudo recente, este facto duplica a imunidade do corpo às doenças. Outros, ainda, falcatruam o sistema: metem baixas, bebem nas horas de trabalho, consomem heroína para trabalhar melhor ou dedicam-se à busca constante do prazer sexual e da aventura. São relativamente felizes no que de imediato os satisfaz.
Ainda há um grupo significativo de pessoas que consegue alienar-se deste contexto de informação negativa com estratégias de dependência do trabalho (doença muito recente nos jovens profissionais) ou de consumo indiscriminado. Parecem felizes.
São menos os que, olhando todos os dias para o meio copo de água - o facto real – lhe atribuem o valor que tem (referente a um entre 6 biliões de copos) e esperam que o sol, no dia seguinte, se levante como de costume. Conseguem manter uma saúde mental de bom nível e, através desta, usufruir do bem-estar que a Ciência e a Tecnologia nos permitem hoje, como nunca o conseguiram fazer em qualquer momento da História.
É esta lucidez que faz falta a um país à beira de um ataque de nervos. É a lucidez de saber que o sol nasce amanhã; que depende de nós o modo como interpretamos os factos; que apenas fazemos a transição entre os nossos antepassados e os que nos seguirão na Humanidade; somos humanos, erramos e morremos. Afinal tudo é tão simples e transitório.

Em saúde mental, rir é o melhor remédio, mas exige Sabedoria!

Artigo publicado na Medicina e Saúde nº 73 - Novembro de 2003

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